13 de out de 2011

Monteiro Lobato e a divulgação científica na obra O poço do Visconde

Texto de Andréa da Motta Monteiro, publicado originalmente na Revista Fractais e publicado neste blog com a autorização expressa da autora.

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Através da obra O poço do Visconde, publicada em 1937, por José Bento Monteiro Lobato é possível observar como a literatura pode ser instrumento de divulgação científica

           A revista Isto É publicou em 26 de abril de 2006, uma edição especial intitulada “O petróleo é todo nosso”. Os artigos nela publicados comemoravam os 58 anos de fundação da Petrobras S/A e a declaração do governo federal de que o Brasil já era auto-suficiente em produção petrolífera. Este fato fora, no entanto, sonhado por José Bento Monteiro Lobato em O Poço do Visconde, obra publicada em 1937. Nesta obra, Lobato apresenta não apenas o seu desejo de ver um Brasil modernizado e rico graças à exploração das riquezas minerais, como também oferece conhecimento sobre geologia ao seu leitor infantil.

          Em 1965, a editora Brasiliense publicou O Poço do Visconde com o subtítulo “geologia para crianças”, o que nos remete imediatamente à função educadora da literatura infantil e juvenil, sobre a qual escreve Nelly Novaes Coelho em um capítulo intitulado “Literatura infantil: arte literária ou pedagógica?”. A autora estabelece ali uma comparação entre a ideologia de que “literatura seja apenas entretenimento” e aquela que entende a possibilidade de o texto literário oferecer “fatos cientificamente comprováveis ou situações reais, acontecidas e irrefutáveis...”(COELHO, 2000, p. 47). O que se percebe, no entanto, nos textos infantis, é uma combinação entre essas duas ideologias, que foi muito bem aproveitada por Monteiro Lobato em suas obras.

          A literatura infantil sempre esteve relacionada ao entretenimento e ao aprendizado dos pequenos leitores, ainda que os primeiros textos não fossem verdadeiramente destinados ao público infantil, mas adaptações de obras adultas clássicas. Discutiu-se durante muito tempo se este gênero deveria valer-se do registro realista ou do fantasioso, entendendo-se aquele como o testemunho da vida real e este o resultado da intencionalidade criadora (COELHO, idem, p. 51). Em O poço do Visconde, Lobato encontra o equilíbrio entre a realidade e a fantasia, o entretenimento e a informação. Através desta obra, o autor informa o seu leitor sobre a formação do solo e a possibilidade de exploração de petróleo em solo brasileiro, tema já abordado por ele em A crise do petróleo e do ferro (1936). Neste texto, o autor fazia uma crítica à burocracia que impedia a perfuração de poços petrolíferos, embora houvesse estudos sobre este assunto desde o século XIX – a primeira citação sobre petróleo aparecera em um decreto imperial de 1864, concedendo ao inglês Thomas Denny a permissão para extrair minerais do solo brasileiro (ISTO É, 2006, p. 16).

          Em O poço do Visconde, o escritor retoma o tema da exploração de petróleo em um texto cujo público-alvo é infantil; no entanto, antes de apresentar ali seus questionamentos sobre o assunto, Lobato explica aos seus pequenos leitores o que é a ciência chamada Geologia e qual é o seu objeto de estudo. O autor o faz através do Visconde de Sabugosa, que se coloca diante de uma pequena platéia arrumada como alunos em sala de aula:

– A Geologia é a história da Terra. Tudo que aconteceu desde o nascimento desse nosso planeta se acha escrito nas rochas que o formam. A Terra é uma rocha, uma bola de pedra.

(...) A Terra começou, portanto, sendo uma boleta de fogo no espaço (...) e foi se resfriando (...) porque a tendência “do calor é resfriar-se”. (idem, p. 9)

            Páginas adiante, o autor explica o processo de erosão, o que são rochas sedimentares; tece considerações sobre pressão, cimentação e metamorfismo e, ainda explica o que são fósseis. A partir daí, começa sua explanação sobre a origem do petróleo.

– As rochas são túmulos de vidas passadas. Nelas encontramos fósseis de plantas e animais que levam os geólogos a mil conclusões sobre a história da Terra. (...) Nas escavações para petróleo os geólogos encontram restos fósseis de animálculos e de plantas marinhas – como as diatomáceas, algas de células revestidas duma película de sílica. (...) Essa matéria orgânica dos animálculos, muda-se numa porção de coisas que no momento não nos interessam e mudam-se também no que mais nos interessa: o petróleo. (idem, p. 15)

Lobato não só explica a origem do petróleo e a perfuração dos poços, como também aborda a questão de seu esgotamento e seu desejo de ver o Brasil auto-suficiente:

          O Brasil, pois, deve ir se preparando para fornecer petróleo para os Estados Unidos, depois de abastecer-se a si próprio. (...) No dia em que isso acontecer e o Brasil passar de comprador a vendedor de petróleo, então deixaremos de ver essa coisa tristíssima de hoje – milhões de brasileiros descalços, analfabetos, andrajosos – na miséria. (idem, p. 29)

Não apenas em O poço do Visconde, Lobato promove divulgação científica, embora essa expressão sequer apareça em suas obras. Em Viagem ao céu, texto publicado em 1932, apresenta lições de astronomia; em Serões da Dona Benta, a avó de Pedrinho e Narizinho dedica-se a descomplicar a linguagem científica e ensina física às crianças; em História das invenções, Dona Benta conta como surgiram o telefone, o automóvel, as hidrelétricas e as batedeiras de bolo. Na história da literatura, Monteiro Lobato não é o único a falar sobre ciência. Júlio Verne, de quem o brasileiro provavelmente era leitor, também o fizera com sua infinidade de obras que anteciparam eventos científicos que, em muitos casos, levaram mais de cem anos para se tornar realidade.

          Lobato, Verne e outros autores promoveram o diálogo entre entretenimento e informação, realidade e fantasia, arte literária e ciência, adaptando o mágico do imaginário literário a um mundo de avanços científicos e pensamento lógico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: arte literária ou arte pedagógica?. Literaturainfantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000. p. 46-61

LOBATO, Monteiro. O escândalo do petróleo e do ferro. São Paulo: Brasiliense, 1951.

________________. O poço do visconde. São Paulo: Brasiliense, 2004.

REVISTA ISTO É. O petróleo é todo nosso. São Paulo, Três, 26 abr. 2006. Edição especial.

5 de out de 2011

Steve Jobs: nada é por acaso

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          Poderia dizer muitas coisas a respeito de Steve Jobs – odiado por uns, amado por muitos. Podeira escrever linhas e mais linhas de um sujeito estranho, que foi o precursos da tecnologia moderna, estando sempre na vanguarda de seus concorrentes - Bill Gates que o diga - e inovando, e muito, em conceitos que para muitos seria algo completamente impossível de idealizar.

          Lembro de um famoso discurso que assisti no Youtube a algum tempo, em que ele falou sobre ‘ligar os pontos’ e deu o exemplo de sua vida… filho adotivo, não fez faculdade, mas dedicou-se muito às suas convicções. Deixou um legado incrível, uma visão e determinação sem igual. Ligar os pontos é algo como ‘nada acontece por acaso’, Com ele não foi diferente.

          Adeus, Jobs! E obrigado por me mostrar que nada é por acaso… temos sempre que ‘ligar os pontos’.