29 de fev de 2012

Cinco minutos de fama

 

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Lendo o artigo  “A polêmica do dicionário”, de autoria da minha amiga Andréa Motta¹, cheguei à conclusão de que existe uma tendência exacerbista para o termo 'politicamente correto', algo que vem tornando a sociedade brasileira um tanto quanto quadrada, no sentido pejorativo da palavra. O caso aludido no blog da Andréa versa sobre a situação do promotor que deseja impedir que o dicionário Houaiss seja distribuído, por conta de uma expressão que define o sentido pejorativo do termo cigano.

A impressão que tenho é que o tal promotor agiu igual àquelas pessoas que querem se tornar celebridades da noite para o dia, mais ou menos como os participantes dos famosos - e inúteis- reality show dos tipo BBBs, A Fazenda e “programas” do gênero, porém com o viés de se utilizar da estrutura pública para tal fim.

Mas isso não é privilégio apenas do tal promotor. Muitos políticos têm feito coisas semelhantes, com projetos esquizofrênicos, que em nada ajudam a ordem e o progresso do Brasil, servindo apenas como pressuposto lúdico para entupir a pauta das sessões plenárias do país afora. Aliás, esse foi tema de um bloco do programa CQC de 2011, feito na Câmara Municipal de São Paulo. Num dos casos apresentados, um vereador teve a brilhante ideia de criar o projeto que obrigaria as funerárias a transmitir os velórios na internet.

Acredito que seja impossível mensurar em termos financeiros e de tempo, o prejuízo que tais ações dos entes públicos causam para a população, procrastinando questões mais sérias e urgentes, dando lugar a questões pífias como estas, que na minha opinião podem ser consideradas como prevaricação.

Enquanto tais esdruxularias acontecem, questões sérias, como por exemplo na área da saúde, são esquecidas. Comentei, no meu texto anterior, que a portaria da genética na saúde aguarda há três anos a regulamentação para que seja posto em prática.

Enquanto isso, o mundo gira e pessoas morrem nas filas dos hospitais, crianças desnutridas, famintos à mingua e as audiências televisivas sobem!

 

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¹Veja o texto da Andréa Motta em:
aqui.

23 de fev de 2012

A gente não quer só comida

 

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Recentemente, foi notíciado que o Brasil investirá US$2,37 milhões em uma ação em parceria com a FAO/ONU - presidida atualmente pelo ex-ministro do governo Lula, José Graziano - em um projeto semelhante ao Fome Zero - idealizado pelo mesmo Graziano.

Não entrarei no mérito se a iniciativa é boa ou não, mesmo porque este projeto tem como base um programa que popularizou demasiadament o ex-presidente Lula, mas no frigir dos ovos – e na minha opinião - não teve um resultado significativo, e em nenhum momento foi diferente dos programas que os governos anteriores adotaram, para tamanho sucesso mundo afora.

No entanto, quando se fala em custeio de tratamentos para doenças raras, cada pedido soa como frase de baixo calão para o governo. Aliás, para boa parte dos especialistas do Ministério da Saúde, as associações de pacientes e os laboratórios privados são máfias e se articulam apenas para se apossar do dinheiro público – alguns deles falam isso com tanta veemência que quem está de fora acredita que Mario Puzo inspirou-se em nós para escrever sua obra “The Godfather”.

Mas será que o governo tem razão em reclamar do gasto público com atenção à saúde, principalmente no quesito “medicamentos de alto custo”?
De acordo com dados oficiais, o governo gastou em saúde pública no ano de 2008 o equivalente a 3,6% do PIB, enquanto países como Alemanha, Reino Unido, Canadá e Espanha gastaram 6% do PIB. A propósito, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) recomenda que os investimentos em saúde representem 6% do PIB. Para alguns cronistas, o Brasil é o lanterna em investimento na área da saúde, uma vez que muitos países da América Latina investem quase o dobro.
Está circulando a alguns anos o projeto da Emenda Constitucional n. 29, que obrigaria o governo a investir mais em saúde pública. Acontece que o projeto sai da Câmara, vai para o Senado, depois volta para a Câmara, num vai e vem frenético.

Por último, o que mais interessaria na tal emenda era a obrigação do governo em investir 10% do orçamento total em saúde, foi desobrigada pela nova redação do Senado. Ou seja, voltamos a estaca zero.

Se entrarmos na questão das doenças raras - onde estima-se que 8% da população brasileira seja afetada por algum tipo de doença rara - teríamos uma longa discussão, principalmente quando contestarmos a falta de regulamentação da portaria que trata a genética no SUS.

Sendo assim, não há que se falar em investir na casa dos outros, se a própria casa está cedendo. Os dados expostos neste artigo dão conta de que a saúde pública como um todo está a beira de um colapso nervoso. O governo precisa investir além dos 6% recomendado pela Opas e mudar a forma de pensar, deixando o pragmatismo da despesa em favor do pensamento de investimento em saúde e no ser humano.